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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Da cor

Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: a cor do tempo…

  (Mario Quintana in Sapato Florido, 1984, p. 90) 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Quintanares prontos


Quintana, conte sobre o mar,
das incertezas navegáveis
e da suavidade das ondas
batendo em meu rosto

Venha contar teus contos
de além-amor para nunca mais
ser tempo frio

Poeta que canta em tantos
tons, matizes, sopapos prontos
conte mais sobre o tom
sobre o ponto de fuga

Traga os teus timbres
afinados na canção da vida
que revela tantos infelizes corações

Quintana: o timbre, a flor, a tromba
tomba a suavidade de tua pena
na pronta sorte dos que leem
Vem, Quintana, nos teus quintanares
[-encantar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Feliz!



Deitado no alto do carro de feno… com os braços e as pernas abertos em X… e as nuvens, os vôos passando por cima… Por que estradas de abril viajei assim um dia? De que tempos, de que terras guardei essa antiga lembrança, que talvez seja a mais feliz das minhas falsas recordações?
(Mario Quintana in Sapato Florido, 1994,  p. 34)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sôbolos rios que vão



Olha, eu talvez seja esse
cadáver desconhecido
que avistam sob uma ponte
com relativo interesse:

Nem sei mais se me matei
se morri por distraido
se me atiraram do cais

--- o mistério é mais profundo,
muito mais...

Vida, sonho de um segundo
---isso é vulgar mas atroz ---
e tenho pena de mim
como a que eu tenho de voz...

e sigo
todo florido
destes nossos velhos sonhos
imortais

---o misterioso tão sem fim ---

eu sigo todo florido
cadáver desconhecido
vogando, lento, à deriva
nos rios todos do mundo!


(Mario Quintana)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Monotonia



É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,
Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia...
E a própria dor - quem diria? -
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma...
E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!
Ainda bem que tudo acaba...
Ai que vida tão cumprida...
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava!

(Mario Quintana)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Confissão



Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!


(Mario Quintana)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Emergência



Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


(Mario Quintana)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Trova



Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

(Mario Quintana)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Da vez primeira em que me assassinaram



Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

(Mario Quintana)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Canção do dia de sempre



Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência...esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

(Mario Quintana)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos



Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!


(Mario Quintana)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Do estilo

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...

Só em linguagem amorosa agrada

A mesma coisa cem mil vezes dita.

(Mario Quintana)



quinta-feira, 30 de julho de 2009

O que o vento não levou...



O que o vento não levou...
No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

(Mario Quintana)