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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A campanha eleitoral de 2010 está no ar

DEBATE ABERTO

Diante do atual silêncio da Globo em relação à pesquisa CNT/Sensus recomendo aos interessados em analisar a cobertura das eleições de 2010 pelo Jornal Nacional, que comecem a trabalhar desde agora. Material, pelo visto, é que não vai faltar.

Começou a campanha eleitoral para 2010 na TV. E a Globo, como sempre, saiu na frente. Na semana passada, o Jornal Nacional e o Jornal da Globo ignoraram solenemente a pesquisa CNT/Sensus onde Lula aparece com 84% de aprovação, um recorde histórico. Mas claro, isso não é notícia pelos critérios jornalísticos globais. Muito menos o fato da ministra Dilma Roussef ter alcançado, pela primeira vez, a casa dos dois dígitos na pesquisa de intenção de votos para a presidência. E será assim até as eleições. O que não é nenhuma novidade. Pode-se criticar a Globo por vários motivos, menos pela falta de coerência.

Desde a última ditadura, para não termos que voltar muito na história, ela sempre esteve do mesmo lado: elitista, entreguista, conservador. Apoio aos golpistas e ao regime militar, tentativa de fraudar a vitória de Leonel Brizola ao governo do Rio em 1982, boicote às diretas-já, criação da candidatura Collor, edição fraudulenta do debate entre ele e Lula em 1989, destituição de Collor e apoio a Fernando Henrique, Serra e Alckmin nas eleições seguintes.

Sobre os primeiros casos citados, muito já se escreveu mas, como eles mesmo dizem, vale a pena ver de novo. Pelo menos alguns deles.

Por exemplo, assisti - com estes olhos que a terra... - ao Jornal Nacional de 25 de janeiro de 1984, dia do comício das Diretas Já, com cerca de 300 mil pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, noticiado como uma festa pelo aniversário da cidade. Isso foi dito na abertura da matéria lida pelo apresentador no estúdio (na "cabeça", segundo o jargão do telejornalismo). Texto nunca mostrado pelos atuais funcionários da empresa, encarregados da revisão histórica do período, nas inúteis tentativas de negar o fato.

Ouvi, com estes ouvidos que terão o mesmo destino dos olhos, uma longa entrevista (mais de 15 minutos) na rádio Globo, em 1988, com o então desconhecido governador de Alagoas, Fernando Collor de Melo. Ele era apresentado ao País como o "caçador de marajás", assim chamados os funcionários públicos alagoanos detentores dos salários mais altos. Na mesma época, o Globo Repórter dedicava uma edição inteira ao mesmo tema. Começava então uma campanha eleitoral que teria seu ponto alto na edição caprichada do debate Collor-Lula, apresentada no Jornal Nacional, na véspera da eleição. A ordem do dono da empresa era taxativa: mostrar todas as intervenções positivas do seu candidato e tudo de ruim que ocorreu com o adversário. A edição competente virou o jogo. Eleito, Collor caiu logo em desgraça nos altos escalões do Jardim Botânico. Até novela foi feita para derrubá-lo e nunca protestos de rua, como o dos "caras-pintadas", foram tão bem vistos pela emissora.

Já ouço alguém dizendo: "lá vem ele com as teorias conspiratórias de sempre". Não respondo. Prefiro passar a palavra a dona Lily Marinho, viúva do dono das Globos, ditas no lançamento do livro Roberto e Lily, em 2005 e revelada na coluna de Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo : "O Roberto colocou ele (Fernando Collor de Mello, na Presidência) e depois tirou. Durou pouco. Ele se enganou". Nada mais a acrescentar.

Só resta perguntar: e depois? Como se comportou o jornalismo da Globo, e particularmente o seu telejornal de maior audiência nas eleições seguintes?

Para os dois pleitos presidenciais mais recentes (2002 e 2006) está na praça um livro-documento: Telejornalismo e Poder nas Eleições Presidenciais (Summus Editorial, São Paulo, 2008), de Flora Neves, professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina. Trabalho meticuloso, combinando uma exaustiva coleta de material (a gravação de 199 edições do Jornal Nacional) com uma sofisticada análise dos dados. Cuidados que levam a resultados indiscutíveis, excludentes de qualquer tipo de "achismo". Mostram como o principal telejornal do país manipulou a cobertura daquelas duas eleições contrariando até muitos teóricos e críticos da comunicação que chegaram a comemorar a imparcialidade da Globo nessas coberturas, opinião claramente desmentida pela pesquisa.

Vamos a alguns dados publicados no livro. Em 2002, no segundo turno, 66.66% das matérias eram favoráveis a Serra e apenas 20,0% a Lula. A autora conclui que, nesse período, "a cobertura se manteve na agenda dos candidatos, procurando pontuar o mesmo número de falas de Lula e Serra, mas com momentos ruins de Lula e momentos bons de Serra", mantendo a linha editorial iniciada na edição do debate Lula-Collor, acima mencionado.

Mas naquele ano Lula não foi o único alvo do Jornal Nacional. A pesquisa mostra como o noticiário da Globo se esforçou para derrubar a candidatura Ciro Gomes que ameaçava ir para o segundo turno, tirando José Serra da disputa. "O candidato do PPS recebeu valências (valoração dada às matérias: positiva, negativa e neutra) negativas durante quase todo o período da cobertura, destacando-se como homem truculento, de pavio curto, que fala o que pensa e só sabe criticar, além de estar envolvido com políticos corruptos", diz a autora.

Em 2006, chama atenção o quadro de valências referente às edições do Jornal Nacional veiculadas entre o início no horário eleitoral obrigatório no rádio e na TV e o primeiro turno das eleições. Vejam os percentuais de matérias positivas relativas aos principais candidatos:

Alckmin 68,57%; Cristovam 52,94%; Heloisa Helena 61,76% e Lula 16,43%.

É preciso dizer mais alguma coisa? São números que explicam a ida de Alckmin para o segundo turno e nos quais se insere a cobertura do famoso dossiê anti-petista, explorado à larga pelo Jornal Nacional.

Episódio também tratado no livro. Apesar do empenho, a Globo perdeu as
duas eleições, mas mantêm-se fiel aos seus princípios. Mostra com grande antecedência que estará firme na próxima campanha presidencial, sempre do mesmo lado.

As gravações analisadas pela professora Flora Neves em 2002 e 2006
começaram a ser feitas no período que antecedeu as pré-convenções partidárias, já em pleno ano eleitoral. Diante do atual silêncio da Globo em relação à pesquisa CNT/Sensus recomendo aos interessados em analisar a cobertura das eleições de 2010 pelo Jornal Nacional, que comecem a trabalhar desde agora. Material, pelo visto, é que não vai faltar.


Laurindo Lalo Leal Filho*, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade Cásper Líbero. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4147

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A mobilização pelas lágrimas

O poder de agendamento da telenovela passa ao largo da politização
por Malu Fontes*

Dificilmente contesta-se a tese de que a idéia que o mundo tem dos Estados Unidos, da identidade dos norte-americanos e do american way of life é resultado da engrenagem cinematográfica hollywoodiana, que espalhou pelo planeta muito mais que filmes, divas e galãs. Exportou e produziu não apenas histórias telecontadas. Foi além: forjou, em todo o mundo, sonhos, modos de vida, fantasias e predominantemente caricaturas da história do imperialismo que representa. Foi fundamental para ensinar e difundir desde gestualidades sensuais, sexuais e narrativas amorosas a ideologias políticas e de consumo, passando pelo poder de dourar a supremacia do capitalismo.

Cada um tem a Hollywood que pode e, no Brasil pode-se dizer sem risco de errar que a telenovela está para a construção do imaginário nacional assim como o cinemão hollywoodiano está para a idéia que o mundo tem dos Estados Unidos da América. Não importa que os intelectuais e os mais letrados torçam o nariz para o produto, quase uma unanimidade negativa entre os bem formados nas melhores universidades do país. O fato é que, embora a telenovela brasileira seja vista sob uma aura de sinistrose pela intelligentsia, ela foi, é e continua a ser o produto de consumo cultural mais importante, democrático e acessível às massas do país. Chega, levando o mesmo texto, as mesmas tramas e narrativas estéticas, tanto às suítes nababescas dos condomínios de luxo quanto aos barracos de um cômodo só, que podem até não ter geladeira, mas têm um aparelho de TV e, não raro, nos rincões brasileiros, uma antena parabólica para garantir a boa recepção das imagens.

SEM LIVRO – O poeta e semiólogo Décio Pignatari já disse que a televisão brasileira teve um papel de alfabetizadora nacional para todo um contingente populacional que dos anos 60 para cá migrou, analfabeto ou com baixíssimo letramento, para os grandes centros urbanos. Essas pessoas, vindas de uma cultura essencialmente oral e restrita ao lugar onde habitavam, onde as trocas simbólicas tinham dimensões limitadas e o exercício da abstração era parcamente alimentado, de uma hora para outra, sem escalas, começam a apreender o mundo das cidades, as práticas, os hábitos e as aparências dos mais favorecidos através de uma espécie de manual televisual de urbanidade eletrônico, na tela da TV, sem antes terem passado pela cultura do livro.

Não precisa ir muito longe para imaginar os abismos simbólicos provocados por essa transposição armengada sobre o canyon cultural existente entre dois mundos, o rural e o urbano, o letrado e o iletrado, o mundo dos poucos muito ricos e dos muitos muito pobres. Ao olhar para a novela, embalada pela emotividade minuciosamente pensada previamente, toda uma miscelânea sócio-econômica começa a ver a mesma coisa, consumir os mesmos estímulos visuais e é assim até hoje. Em tempos em que a ditadura militar ajudou a estruturar um sistema de telecomunicações que proporcionasse a população uma idéia de integração e unidade nacional, a telenovela foi um instrumento perfeito, um achado. Um país se via na TV, com quase tudo homogeneizado, pois se tem algo que nunca funcionou na televisão brasileira foi a regionalização. Do Amazonas ao Rio Grande consome-se praticamente o mesmo caldo televisivo quase que totalmente produzido no eixo Rio-São Paulo.

PASSIONALIDE - Embora produzida no mesmo centro cultural e geográfico, a telenovela pauta o repertório e a subjetividade de um país inteiro. Muda comportamentos, emociona, produz ódios nacionais e mobiliza contingentes populacionais inimagináveis, de tal modo que todo ativista ou militante de uma causa social hoje sonha não com uma matéria em um telejornal nacional, mas com a inserção de sua causa em uma telenovela, com um autor que a adote e coloque-a nas falas e atitudes da mocinha da trama ou do galã. Uma personagem de novela, linda, loura, rica, jovem e carioca, como a Camila interpretada por Carolina Dieckman em Laços de Família, de Manoel Carlos, precisa de um transplante de Medula: imediatamente o país assiste a uma generosidade sem antecedentes de doadores que procuram bancos de medula país afora.

Diante de tamanho potencial de mobilização da telenovela, paradoxalmente chama atenção o fato de o produto agendar de tal modo o repertório, os costumes e o comportamento nacionais sem passar perto da politização dos temas que aborda. Ao contrário, é sempre acusada, com justiça, de despolitizar a audiência. Ao defender suas causas jamais o faz pelo viés ideológico ou sócio-político, mas tão somente pela emoção, pelo estímulo à parcialidade das lágrimas e pela identificação com fantasias românticas de folhetim. Uma explicação para que seja assim e mobilize tanto talvez esteja no fato de que, para além da língua, a passionalidade seja uma das raras coisas comuns a um povo de um país tão amplo, diverso e multifacetado. A outra é a velha e boa tese da alienação proposital denunciada pelos críticos como sendo a marca do veículo televisão.

Malu Fontes* é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA;