segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O que vem depois?



O que vem depois do colorido do teu olhar?
Ponho-me de vez em parte
Sem mais poder imaginar

Da angústia a toda parte erra
Jaz de si, tanta espera
Ei-la perdida e fria

A lágrima, gota mais pura
Indeferida no teu seio
Fere-se por completa

Sê-la mais húmida e quente
Feitio dissonante
Rota e inerme assevera

Já não sei, sei, lá se ia
Sê-la fosse em partida
Aquecer teu corpo, tua vida.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Inconstância




Eu sou a inconstância de todas as coisas
não sei se me acomodo ou sigo incomodando
Se reprovo ou fico a rejeitar.

Não sei se vivo ou peno a existir
se demoro ou sigo a insistir
Não sei se rio ou volto a alegrar.

Se à noite escureço ou rejeito clarear
ao entristecer esqueço de chorar
Ao partir, vejo que já fui.

De manhã quando clareia o dia
já estou a iluminar
e quando demora a ceia, já estive a cear.

Se vejo meu ontem, já estive a sonhar
se a sonhar depois, já era hora de voltar
pro mesmo lugar de outrora.

Quando esqueço de partir
vejo que já é tarde
nem mais posso insistir.

sábado, 26 de junho de 2010

XXXIV



Do âmago à essência plena
que corre...todo mel escorre
sangue nas veias
retilíneas veias que levam
sangue...

nesse suor de dias
Sôfregos.

Eu, só, que sofro,
Tua falta, tua ausência...

Eu só assim, queria
Olhar novamente teu olhar
tua face angelical
E deleitar-me sobre o mais puro sorrriso
...que tenho, ruborizado e incontido
sorriso..

partido,
sem nó,
sem dó,

esquecido dentro de toda a minha existência.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O amor



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma, nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sentir



Sentir,
bem mais que a vida possa permitir,
os sonhos, a pele, a face...
o beijo não dado, ferido, esquecido

Sentir,
bem mais do que a vida possa permitir,
no âmago da vida, esquece...
o sol no seu raiar, ferido

Sentir,
bem mais do que a vida possa permitir,
do ontem, que entristece...
em forma de prece, caído

Sentir,
bem mais do que a vida possa permitir,
do nome, da face que fenece...
do mundo pleno prometido

Sentir,
bem mais do que a vida possa permitir,
do peito, a poesia que adormece...
do amor indelével, expelido

Sentir,
bem mais do que a vida possa permitir,
a verdade, que brota, floresce...
o amor que não cessa, indeferido.

terça-feira, 4 de maio de 2010

XXXIII



Que meu canto seja confortante ao seu sinal de sono

Alegre tuas paisagens enquanto adormece

E torne a te confortar quando despertas


Que meu canto seja o sopro de vida para tua alma

O alcance maior para teus compromissos

Que ele tenha sempre razão em cantar.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

XXXII



Minhas lágrimas já são frias
Parecem inconter gritos de outrora
Antes gritos de alegria traziam força
Hoje em gritos de agonia, assola.

Já não consigo mais chorar
Já não consigo mais gritar
O grito de meu peito surge e permanece
a gritar dentro de mim mesmo
-Não sai, não ganha forma...

Ele vive em sua própria aflição,
consigo mesmo,
Ele vive tão forte e desassossegado
Imanente em mim perdura

Tenho um grito tão forte
Asfixia-me, remove-me
Tão forte é meu grito
Que não consigo nem mais gritar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cantar a natureza



Eu vou cantar um canto de beleza

Louvor e sabor na mesa

Louvar, louvar eu vou!

Louvar, louvar eu vou!


Sagrada natureza

Fonte viva de certeza

Sabor e esplendor do amor

Sabor e esplendor do amor


Teu canto é todo de beleza

Tua vida traz-nos a certeza

De toda a sua beleza

De toda a sua beleza


Teus rios e amadas fontes

Teu povo semente do ontem

E de um novo amanhã

E de um novo amanhã


Ô, ô, ô, lalala la la

Lalala la la


Eu vou cantar, eu vou

Todo o seu progresso de amor

Glórias ao Deus Pai que nos criou

Imagem e semelhança natureza

De amor, de amor, ô ô ô

De amor, de amor, ô ô ô.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Adeus, meus sonhos



Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo!
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

(Álvares de Azevedo)