quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"Onde não há utopia não há futuro"

Para dom Pedro Casaldáliga, somente a construção de um mundo só (e não dois ou três ou quatro) poderá salvar a Humanidade. Segundo ele, é utopia, mas uma utopia "necessária como o pão de cada dia".

por Nilton Viana

Dom Pedro Casaldáliga tem sido uma voz firme na defesa de que, para o socialismo novo a utopia continua. E esclarece: a utopia de que falamos, a compartimos com milhões de pessoas que nos precederam, dando inclusive o seu sangue, e com milhões que hoje vivem e lutam e marcham e cantam. Para ele, esta utopia está em contrução, somos operários da utopia.

Mesmo convivendo com o “irmão Parkinson”, como ele mesmo define a doença de Parkinson - uma enfermidade neurológica, que afeta os movimentos da pessoa, causa tremores, lentidão de movimentos, rigidez muscular, desequilíbrio além de alterações na fala e na escrita - carinhosamente respondeu às nossas perguntas. E, nesta entrevista ao Brasil de Fato, Casaldáliga fala do “absurdo criminal de constituir a sociedade em duas sociedades de fato: a oligarquia privilegiada, intocável, e todo o imenso resto de humanidade jogada à fome, ao sem-sentido, à violência enlouquecida”. E defenque que, hoje, só a participação ativa, pioneira, de movimentos sociais pode retificar o rumo de uma política de privilégio para uns poucos e de exclusão para a desesperada maioria. E adverte: o latifúndio continua a ser um pecado estrutural no Brasil e em toda Nossa América.

Brasil de Fato - Como o senhor tem visto a devastadora crise que já afeta todos os países e principalmente a classe trabalhadora?

Dom Pedro Casaldáliga - Com muita indignação e revolta; com uma sensação de importência e ao mesmo tempo a vontade radical de denunciar e combater os grandes causantes dessa crise. Esquecemos, fácil demais, que a crise fundamentalmente é provocada pelo capitalismo neoliberal. Irrita ver governantes e toda a oligarquia justificando que as economias nacionais devam servir ao capital financeiro. Os pobres devem salvar economicamente aos ricos. Os bancos substituem a mesa da familia, as carteiras da escola, os equipamentos dos hospitais...

Eu estava comentando ontém (19 de dezembro) com uns companheiros de missão que a avalanche de demissões acabará justificando uma avalanche de assaltos, por desespero. Está crescendo cada dia mais o absurdo criminal de constituir a sociedade em duas sociedades de fato: a oligarquia privilegiada, intocável, e todo o imenso resto de humanidade jogada à fome, ao sem-sentido, à violência enlouquecida. Fecham-se as empresas, quando não conseguem um lucro voraz, e se fecha o futuro de um trabalho digno, de uma sociedade verdadeiramente humana.

Como o senhor analisa o papel dos movimentos sociais frente a atual conjuntura?

Já faz um bom tempo que, sobretudo no Terceiro Mundo (concretamente no nosso Brasil, na Nossa América), se vem proclamando por cientistas sociais e dirigentes populares que hoje só a participação ativa, pioneira, de movimentos sociais pode retificar o rumo de uma política de privilégio para uns poucos e de exclusão para a desesperada maioria. Os partidos e os sindicatos têm ainda sua vez; devem conservá-la ou reivindicá-la. Sindicato e partido são mediações políticas indispensáveis; mas o movimento social organizado, presente no dia-a-dia do povo, é sempre mais urgente, como uma espécie de "vanguarda coletiva".

Diante deste cenário, na sua avaliação, quais são as alternativas para os pobres do mundo hoje?

A alternativa é acreditar mesmo, que "Outro Mundo é Possível" e se entregar individualmente e em comunidade ou grupo solidário a ir fazendo real esse "mundo possível". O capitalismo neoliberal é raiz dessa crise e somente há um caminho para a justiça e a paz reinarem no mundo: socializar as estruturas contestando de fato a desigualdade socio-econômica, a absolutização da propriedade e a própria existência de um Primeiro Mundo e um Terceiro Mundo, para ir construindo um só Mundo, igualitário e plural. Com frequência respondo a jornalistas e amizades do Primeiro Mundo que somente a construção de um mundo só (e não dois ou três ou quatro) poderá salvar a Humanidade. É utopia, uma utopia "necessária como o pão de cada dia". Onde não há utopia não há futuro.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/entrevistas/onde-nao-ha-utopia-nao-ha-futuro

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A mobilização pelas lágrimas

O poder de agendamento da telenovela passa ao largo da politização
por Malu Fontes*

Dificilmente contesta-se a tese de que a idéia que o mundo tem dos Estados Unidos, da identidade dos norte-americanos e do american way of life é resultado da engrenagem cinematográfica hollywoodiana, que espalhou pelo planeta muito mais que filmes, divas e galãs. Exportou e produziu não apenas histórias telecontadas. Foi além: forjou, em todo o mundo, sonhos, modos de vida, fantasias e predominantemente caricaturas da história do imperialismo que representa. Foi fundamental para ensinar e difundir desde gestualidades sensuais, sexuais e narrativas amorosas a ideologias políticas e de consumo, passando pelo poder de dourar a supremacia do capitalismo.

Cada um tem a Hollywood que pode e, no Brasil pode-se dizer sem risco de errar que a telenovela está para a construção do imaginário nacional assim como o cinemão hollywoodiano está para a idéia que o mundo tem dos Estados Unidos da América. Não importa que os intelectuais e os mais letrados torçam o nariz para o produto, quase uma unanimidade negativa entre os bem formados nas melhores universidades do país. O fato é que, embora a telenovela brasileira seja vista sob uma aura de sinistrose pela intelligentsia, ela foi, é e continua a ser o produto de consumo cultural mais importante, democrático e acessível às massas do país. Chega, levando o mesmo texto, as mesmas tramas e narrativas estéticas, tanto às suítes nababescas dos condomínios de luxo quanto aos barracos de um cômodo só, que podem até não ter geladeira, mas têm um aparelho de TV e, não raro, nos rincões brasileiros, uma antena parabólica para garantir a boa recepção das imagens.

SEM LIVRO – O poeta e semiólogo Décio Pignatari já disse que a televisão brasileira teve um papel de alfabetizadora nacional para todo um contingente populacional que dos anos 60 para cá migrou, analfabeto ou com baixíssimo letramento, para os grandes centros urbanos. Essas pessoas, vindas de uma cultura essencialmente oral e restrita ao lugar onde habitavam, onde as trocas simbólicas tinham dimensões limitadas e o exercício da abstração era parcamente alimentado, de uma hora para outra, sem escalas, começam a apreender o mundo das cidades, as práticas, os hábitos e as aparências dos mais favorecidos através de uma espécie de manual televisual de urbanidade eletrônico, na tela da TV, sem antes terem passado pela cultura do livro.

Não precisa ir muito longe para imaginar os abismos simbólicos provocados por essa transposição armengada sobre o canyon cultural existente entre dois mundos, o rural e o urbano, o letrado e o iletrado, o mundo dos poucos muito ricos e dos muitos muito pobres. Ao olhar para a novela, embalada pela emotividade minuciosamente pensada previamente, toda uma miscelânea sócio-econômica começa a ver a mesma coisa, consumir os mesmos estímulos visuais e é assim até hoje. Em tempos em que a ditadura militar ajudou a estruturar um sistema de telecomunicações que proporcionasse a população uma idéia de integração e unidade nacional, a telenovela foi um instrumento perfeito, um achado. Um país se via na TV, com quase tudo homogeneizado, pois se tem algo que nunca funcionou na televisão brasileira foi a regionalização. Do Amazonas ao Rio Grande consome-se praticamente o mesmo caldo televisivo quase que totalmente produzido no eixo Rio-São Paulo.

PASSIONALIDE - Embora produzida no mesmo centro cultural e geográfico, a telenovela pauta o repertório e a subjetividade de um país inteiro. Muda comportamentos, emociona, produz ódios nacionais e mobiliza contingentes populacionais inimagináveis, de tal modo que todo ativista ou militante de uma causa social hoje sonha não com uma matéria em um telejornal nacional, mas com a inserção de sua causa em uma telenovela, com um autor que a adote e coloque-a nas falas e atitudes da mocinha da trama ou do galã. Uma personagem de novela, linda, loura, rica, jovem e carioca, como a Camila interpretada por Carolina Dieckman em Laços de Família, de Manoel Carlos, precisa de um transplante de Medula: imediatamente o país assiste a uma generosidade sem antecedentes de doadores que procuram bancos de medula país afora.

Diante de tamanho potencial de mobilização da telenovela, paradoxalmente chama atenção o fato de o produto agendar de tal modo o repertório, os costumes e o comportamento nacionais sem passar perto da politização dos temas que aborda. Ao contrário, é sempre acusada, com justiça, de despolitizar a audiência. Ao defender suas causas jamais o faz pelo viés ideológico ou sócio-político, mas tão somente pela emoção, pelo estímulo à parcialidade das lágrimas e pela identificação com fantasias românticas de folhetim. Uma explicação para que seja assim e mobilize tanto talvez esteja no fato de que, para além da língua, a passionalidade seja uma das raras coisas comuns a um povo de um país tão amplo, diverso e multifacetado. A outra é a velha e boa tese da alienação proposital denunciada pelos críticos como sendo a marca do veículo televisão.

Malu Fontes* é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA;

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A grandeza de um educador: Paulo Freire, sua fé e a Teologia da Libertação

Alguns dias atrás, folheando alguns materiais sobre educação, em especial sobre o educador Paulo Freire; deparei-me com um vídeo que logo chamou atenção. Tratava-se sobre uma magnífica entrevista do incansável educador Paulo Freire acerca de sua fé e sua relação e postura de trabalho como cristão.
Ao longo de sua maturidade e já delimitado pelos seus últimos anos de caminhada, Paulo Freire falava em sua última entrevista, sobre a sua relação com a educação, com o poder transformador que a educação proporciona enquanto fator sócio-transformador direto e relata belissimamente onde baseou-se para editar suas teorias. Muitos o chamam de utópico, sonhador e que se afasta da realidade, mas Freire revela sua dedicação em especial aos mais necessitados. O olhar solidário sobre os mais necessitados nasce sobre sua fé em Cristo e na vida prática cristã dessa fé. Com toda sua serenidade ele equipara essa fé a uma vida prática, na proximidade com Cristo vivenciando e contribuindo na formação da vida das pessoas: é uma postura ética e de coragem, que exige desapego e total dedicação das energias em prol da causa.
E foi assim, que Paulo Freire viveu, defendendo incessantemente sua paixão e amor pela educação, pelo caráter humano e sócio-transformador do educador e pela contribuição que esse educador tem a dar por nossa sociedade. Ele comenta ainda, nessa entrevista, essa sua proximidade com a vida cristã prática, com a ética e com a doação nesse papel transformador cristão: E foi assim que ele viveu até seus últimos dias de vida, com exemplar doação e dedicação.

*Paulo Freire é um dos pedagogos mais admirados e respeitados em todo o mundo. É autor de livros célebres como a "Pedagogia dos Oprimidos", "Educação como prática da liberdade" e "Pedagogia da Autonomia".

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Utopias - de como é bom ter uma família

Com a chegada e aproximação da Festa do Nascimento de Jesus Cristo, o que temos como retrato é a reunião das nossas famílias, a sua celebração em torno do Natal e na expectativa de já planejar um novo ano. Como é bonito ver os votos sinceros de Feliz Natal entre os membros de nossas famílias. Natal que traz paz, reconciliações, desejos e votos sinceros da paz do Senhor em nossos lares. Feliz de quem ainda celebra o Natal em família e não deixa que a mesma se desmonte. Feliz daquele que tem uma família para celebrar um Natal!

Esse é um período que nos chama a atenção para o poder que o Natal exerce sobre nossas vidas. Parentes vindos de longe para celebrar essa data, famílias que nunca se reunem, aproveitam a ocasião para celebrar e reatar velhos laços, muitas vezes até gravemente feridos. Quiséramos que fosse Natal todos os dias!


Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis...
Ora! não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos,
Se não fora a mágica presença das estrelas!
(Mario Quintana)



sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Todos estão surdos

Desde o começo do mundo
Que o homem sonha com a paz
Ela está dentro dele mesmo
Ele tem a paz e não sabe
É só fechar os olhos
E olhar pra dentro de si mesmo
Tanta gente se esqueceu
Que a verdade não mudou
Quando a paz foi ensinada
Pouca gente escutou
Meu Amigo, volte logo
Venha ensinar meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo.

Outro dia, um cabeludo falou:
"Não importam os motivos da guerra
A paz ainda é mais importante que eles.
" Esta frase vive nos cabelos encaracolados
Das cucas maravilhosas
Mas se perdeu no labirinto
Dos pensamentos poluídos pela falta de amor.
Muita gente não ouviu porque não quis ouvir
Eles estão surdos!"

Tanta gente se esqueceu
Que o amor só traz o bem
Que a covardia é surda
E só ouve o que convém
Mas meu Amigo volte logo
Vem olhar pelo meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo.

Um dia o ar se encheu de amor
E em todo o seu esplendor as vozes cantaram.
Seu canto ecoou pelos campos
Subiu as montanhas e chegou ao universo
E uma estrela brilhou mostrando o caminho
"Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra aos homens de boa vontade".

Tanta gente se afastou
Do caminho que é de luz
Pouca gente se lembrou
Da mensagem que há na cruz
Meu Amigo, volte logo
Venha ensinar meu povo
Que o amor é importante
Vem dizer tudo de novo!
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)


***O vídeo é uma versão interpretada por Chico Science e Nação Zumbi.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Esvaziar-se

Esvaziar-se:
de mim
de tudo
de nós
do mundo.

Esvaziar-se
tão completamente:
do sussurro
do passado
do futuro.

Esvaziar-se:
do silêncio
da verdade
do presente
do perigo.

Esvaziar-se:
do terrível
do belo
do horrível
do sensível.

Esvaziar-se
tão completamente:
até repente: ouvir.
- O quê?
um sussurro,
de nós
de tudo
do mundo.

Esvaziar-se:
de nós
de tudo
até ecoar o silêncio.
mudo...
vazio...
mais nada!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

-- 02 --

Sorrir,
Pela simples grandeza de um sorriso
Por toda magia de cada instante
Por que a vida vale a pena
E começa com um simples sorriso.

Logo que nascemos, choramos,
E nossos pais sorriem feito bobos
Sorrimos quando morremos
Sorrimos quando revivemos.

Logo que acontece algo de bom:
Sorrimos!
E quando acontece algo de ruim
Depois de chorarmos,
Finalmente sorrimos.

Talvez a beleza da vida
Esteja em cada sorriso
Simples, mas belo e infinito.

Oh meu Deus quero morrer sorrindo
E acreditando que em cada segundo
Que tudo foi inesquecível
E que valeu a pena.

O fim vai ser belo
E como o sorriso de meu amor
Veremos um mundo diferente
Gente será tratada como gente
E sorriremos pelo triunfo do amor
E da bondade eternamente.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

-- 01 --

A noite vem cálida atormentar o poeta
Trazendo consigo a insolente madrugada;
A noite cálida traz as dores de poeta,
De quem quer fazer da vida finita – mais nada!

Lânguidos seus lábios clamam o imaginário
O ardente beijo a forma luzente
O carente sopro a luz passageira
A herança pobre de uma noite sem fim.

A noite traz assim
Como um sopro infinito ao clarim
O pesar de ter de saber
Que ele não consegue viver.

Os dias felizes o são
Inesgotáveis esperas ao horror
Memoráveis esferas de um falso pudor
Errantes fábulas sem fim.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Poema Lingüista

Numa situação - tenho chapéu -
Noutra situação - tenho mel -
E também [um dia] tenho o céu.

Uilian Dalpiaz apud Ângela Back